Exposição: 30 de novembro de 2011 a 12 de fevereiro de 2012 - Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

Apresentação

A Guilda de São Francisco é um grupo formado por três artistas plásticos – Celio Belem, Claudio Valério Teixeira e Milton Eulálio – que exercem também a profissão de conservadores e restauradores de pintura. O grupo foi constituído em 2005, quando iniciou os trabalhos que ora estão exibidos no Museu Nacional de Belas Artes.

Este coletivo de pintores teve sua gênese a partir de conversas no ateliê, em Niterói, e do interesse em criar obras conjuntas que homenageassem a pintura do século XVII, com especial dedicação ao estudo da técnica aplicada pelos artistas dessa época, tendo sido eleita como matriz principal a obra de Rubens.

A intenção não se limita à simples replicação dos materiais utilizados pelo artista flamengo, como pigmentos históricos e substâncias empregadas na preparação de fundos dos suportes originais, mas, sobretudo, propõe-se a aproximar o universo estético daquelas pinturas – já bastante esquecido – à atualidade, tais como o uso do método indireto, a imprimatura1, a construção em grissaille2 e a velatura3 de acabamento.

Todas as obras são criações realizadas pelos três artistas que compõem a Guilda de São Francisco – exceto a que reverencia Nicolas Poussin, que se constitui numa reinterpretação da primeira versão da obra Pastores da Arcadia (Et in Arcadia Ego), pertencente à coleção Chatsworth House, na Inglaterra. A escolha desta obra em detrimento da segunda versão de mesmo título, que se encontra no acervo do museu do Louvre, em Paris, corresponde à preferência por uma composição de teor mais caracteristicamente barroco, para colaborar na construção de uma unidade estética com o conjunto que a acompanha. Na pintura que homenageia Poussin, os elementos funcionais como ritmo, cor e linhas principais foram mantidos; já os protagonistas da cena – os pastores – foram substituídos pelos artistas, autorretratados e perplexos diante da lápide na floresta e sua enigmática inscrição: Et in Arcadia Ego.

Na Holanda, as guildas profissionais do século XVII eram nomeadas de acordo com seus padroeiros – desse modo, a Guilda de São Lucas recebeu tal designação em tributo ao patrono dos pintores. Em Niterói, a Guilda de São Francisco foi assim chamada pelo fato de o ateliê que hospeda o trabalho coletivo estar localizado no bairro do mesmo nome.

As atividades desenvolvidas por este grupo de pintores têm por objetivo, na medida do possível, estudar técnicas utilizadas no século XVII, resgatar procedimentos técnicos em geral já em desuso e indagar sobre a temporalidade do fazer artístico, sobre a dúvida do espectador na presença de uma pintura que, em seu aspecto formal, parece antiga, mas que, sob um olhar mais atento, revela elementos que remetem a particularidades ou dilemas da contemporaneidade.

Como em Céu da China, composta por mesa coberta com tapete belga do século XVII, vasos de porcelana de Delft (cidade de Vermeer), uma delicada viola da Gamba, livros antigos e a transparência de um cálice de vinho, todos elementos típicos de um tempo passado, emoldurados discretamente por uma visão panorâmica da cidade chinesa de Chongking, um dos maiores conglomerados urbanos do mundo, detentor dos mais elevados índices de poluição atmosférica. Esse convívio entre épocas distintas também pode ser observado em Ceres, Vênus e Baco, cuja docilidade de texturas alcançada por sucessivas capas de pintura compactua com o ponto de vista dos personagens da idílica cena pagã, localizada na favela da Rocinha.

E é esse simulacro que “nega tanto o original quanto a cópia, criando um jogo, no qual os signos descobrem-se máscaras” (Gilles Deleuze) – conceito caro à arte dos dias atuais – que procuramos, como se pudéssemos vergar uma imaginária régua do tempo, permitindo-nos beber nos séculos passados e nas fontes dos grandes museus, aproveitando para estudar com prazer as técnicas antigas, a artesania da pintura, o ofício dos pintores, valores hoje tão pouco cultivados.

 

Celio Belem
Claudio Valério Teixeira
Milton Eulalio

 

Imprimatura ou Imprimidura é uma fina camada de tinta aplicada sobre o fundo branco da tela, antes da execução de uma pintura, o que, além de torná-la menos absorvente, estabelece um meio-tom, contra o qual uma gama completa de tons claros e escuros pode ser desenvolvida. (MARCONDES, Luiz Fernando. Dicionário de termos artísticos. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1998, p. 156-7.)

Grisaille ou Grisalha. Pintura feita inteiramente em tons de cinza ou outra cor neutra acinzentada. A grisalha é às vezes empregada como underpainting ou para a confecção de esboços (notavelmente na obra de Rubens) e na renascença em particular foi usada em obras de pintura que imitavam efeitos esculturais. São exemplos dessa última forma as séries Virtude e Vícios que Giotto pintou na capela Arena, Pádua, e as figuras de S. João Batista e S. João Evangelista na parte exterior do retábulo de Ghent, de Van Eyck (CHILVERS, Ian; tradução Marcelo Brandão Cipolla. Dicionário Oxford de Arte. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 237.) – Neste caso, o autor refere-se à origem deste termo, mas os artistas utilizavam comumente outras tonalidades, como a terra de Siena queimada.

Velatura ou veladura é a aplicação de uma demão de tinta transparente ou de óleo sobre uma camada pictórica, para suavizar a tonalidade, ajustar e unificar as cores, usada especialmente na pintura a óleo. (MARCONDES: 1998, p. 291.)