Exposição: 30 de novembro de 2011 a 12 de fevereiro de 2012 - Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

Texto crítico

A Guilda de São Francisco

Jorge Coli

 

É bem sabido que a arte de vanguarda, ou moderna, como se quiser, ergueu seus fundamentos no princípio das libertações. Libertação da disciplina escolar, dos cânones acadêmicos, das regras, dos mestres, da tradição. Liberar o solo, dizia Le Corbusier, para a arquitetura. Liberar os poemas de suas rimas e metros. Liberar a prosa de qualquer narrativa. Liberar a música que a velha harmonia aprisionava. Liberar os quadros de toda figura, ou representação.

Tal liberdade era determinante para que o artista pudesse criar, e criar queria dizer: inventar o novo. A dupla liberdade e novidade moveu a criação moderna. Ela determinava que o retorno ao passado só poderia ocorrer ou como “releitura”, para empregar um termo hoje na moda, ou como alusão distante, inspiração remota.

Boa fórmula axiológica: liberdade + novidade = modernidade. Porém, todas as proclamações, todas as invenções, originalidades, choques, não eliminam desses imperativos sua dimensão profundamente autoritária. O artista é livre para o que quiser, menos para uma coisa: não ser moderno. A fórmula de São Cipriano, caracterizando o universal da Igreja poderia ser aplicada aqui: fora dela, da modernidade, não há salvação. Trata-se de uma opressão que condenou os artistas apegados às tradições; as palavras que os caracterizaram fizeram-se insultantes: “passadista”, “acadêmico”.

Hoje, os valores, e mais que eles, as intuições e sentimentos modernos entraram em crise. Seus poderes, no entanto, ainda são fortes. Poderes que a Guilda de São Francisco desacata. Num formidável prazer de trabalhar juntos, abolindo o princípio de autoria individual, colaborando com gosto e alegria numa camaradagem cúmplice, eles decidiram voltar às lições dos de outras eras. Não como citações, embora um conjunto de nus possa remeter a Manet, e por trás dele, a Rafael; ou um grupo encaminhe a memória para algum Poussin. Mas, ao conceber o quadro como construção refletida, em que a figura humana, o nu, a paisagem, a natureza morta monumental retomam seus direitos esses artistas tentam encontrar antigos caminhos. Ao descobrir feituras técnicas, processos de representação e de composição que ocorreram no passado, ao avançar pondo o pé nas pegadas dos velhos mestres, escaparam à tirania já meio caduca da modernidade.

Nas obras da Guilda, há discretas referências ao nosso tempo, como essas pequenas centrais nucleares perdidas que se perfilam diante de um pôr-do-sol; ou esse skyline de cidade contemporânea. Mas essas referências discretas, um pouco bizantinas ou cabalísticas, não são necessárias para sabermos que esses quadros foram feitos hoje. Há neles não sei que espírito de malícia e de júbilo que os denuncia.

De qualquer modo, o grande equívoco dos modernos, aquilo que não entenderam é a impossibilidade de não ser atual. A marca deixada pelo agora em qualquer obra que seja, incorpora-se a ela de modo indelével: Borges enunciou com humor esse princípio no seu paradoxo de Pierre Ménard.

O torniamo all’antico que segue a Guilda de São Francisco revela, por tudo isso, uma considerável novidade. Graças ao domínio técnico exigente, graças ao evidente prazer que seus pintores demonstram em expandi-lo nessas telas de belo formato, graças à cumplicidade reforçada pelo trabalho coletivo e pelo estímulo que dele resulta, produzem uma arte que desafia – sem nenhuma intenção militante – as estéticas conformadas.